Segunda-feira, Abril 03, 2006

A PAZ em Angola e o paradoxo da vida dos Angolanos

No dia 4 de Abril de 2002 em Luanda era assinado o Acordo de PAZ entre os irmãos Angolanos. Este acto ímpar na história recente da nação angolana, o governo e a UNITA assumiam compromissos solenemente perante o Povo Angolano, que a guerra terminava e a reconstrução do País começava.

Em 4 de Abril de 2006, os angolanos conhecem o significado do « calar das armas », têm a esperança que a reconstrução do País está a ser feito, dentro dos condicionalismos que é do conhecimento geral, mas as suas vidas não melhoraram.

 Porquê?!

O Governo Angolano passou a mensagem internamente e internacionalmente, que a presente PAZ e os seus mecanismos seriam exclusivamente controlados por si e se assim não fosse, não teria feito essas declarações, nos primeiros encontros de Luena e perante a presença do Secretário-geral da ONU, com o cessar de funções da Comissão Conjunta e o com o papel de mediação e intervenção que a ONU e a Troika sempre teve no processo de PAZ em Angola. É por isso, que todas as revindicações na reintegração dos desmobilizados da UNITA e seus familiares, na reinserção dos deslocados de guerra e refugiados angolanos nos países vizinhos de Angola, se dirigem inevitavelmente para o Governo.

 Não se quer dizer, que a Sociedade Civil se tenha afastado desta situação, pelo contrário, tem contribuído pontualmente no esforço nacional de proporcionar aos mais carenciados, as ajudas humanitárias através de ONG´s, associações cívicas, as igrejas e organizações internacionais humanitárias, como o PAM, HCR etc.

 O cidadão sente na pele, que esta PAZ não lhe « enche a barriga », tal como Sua Excelência o Presidente da República disse na cidade do Namibe, na comemoração do Aniversário da Independência de Angola, que a « Democracia não enche a barriga dos Angolanos »,… mas enche a alma do angolano, dá-lhe vontade de arregaçar as mangas e fazer de Angola um País que lhe venha a dar os frutos que os estrangeiros tanto ambicionaram no passado.

O Angolano quer usufruir destas condições únicas da economia angolana, que atrai os investidores estrangeiros, pensando que vai ter emprego, habitação, saúde e educação.

 Mas que condições são essas?

- O FMI no mais recente relatório indica que o os rendimentos do petróleo em Angola quase que duplicaram o ano passado em relação a 2004 e estamos a falar em 10 BILIÕES de DÓLARES AMERICANOS, mas que continua haver problemas na administração das contas do petróleo.

- A macro-economia angolana está fortalecida e há uma recuperação da economia angolana e o desenvolvimento do sector privado. O crescimento económico de 15% para este ano,… quando também se fala em 27%, é sem dúvida animador para determinar as prioridades no combate a pobreza, que é generalizada,… e quem o diz é o FMI.

 Então, há ou não o paradoxo da maioria dos angolanos viverem na miséria num país potencialmente rico, com valores económicos aliciantes, mas que nestes 4 anos de PAZ e governação, o povo está a viver pior do que à 4 anos atrás, apesar do « calar das armas », dos empréstimos de biliões de USD « made in china », remodelações governamentais, planeamentos e programas bem concebidos nos gabinetes ministeriais, mas que não se vêem nas cubatas, que continuam sem sanitas, sem água potável, sem saneamento público, etc, etc…

 Mesmo assim, temos que agradecer a Deus por este período de PAZ que os homens um dia negociaram.

Carlos Lopes

Escrito por em 19:02:04 | Link permanente | Comments (4) |
Comentário
1 - Caro amigo,
O que sei de Angola é muito pouco para poder comentar.
Mas sendo um país tão grande e com tantas riquezas naturais, só posso desejar tudo de bom ao bom povo de Angola. (Comentar)

Escrito por: Piscoiso em 2006/04/10 - 18:21:25
2 - Acedendo ao seu convite feito no http://azweblog.blogspot.com , venho escrever-lhe umas linhas. Começo por fazer uma longa citação (não literal) de um livro relativamente recente (2003), "O Futuro da Liberdade", da autoria de Fareed Zakaria. "O dinheiro só por si não produz liberdade. No decurso dos últimos 50 anos, alguns regimes enriqueceram e mesmo assim continuaram autocracias, como os Emiratos, a Nigéria ou a Venezuela. Ora, a riqueza destes países petrolíferos não produz mudanças políticas positivas porque o seu desenvolvimento económico é fundamentalmente diferente tanto do modelo europeu como do asiático. Aquelas economias não seguiram o esquema capitalista clássico, passando da agricultura para a indústria e depois para os serviços de valor acrescentado. Contentaram-se em explorar os seus vastos recursos em petróleo e minerais. Os habitantes destes países mantêm-se essencialmente na mesma - sem educação. Surge uma classe empresarial que em vez de ser independente do Estado lhe é completamente subordinada. De facto, a posse de riquezas naturais está intimamente associada ao insucesso económico. Com excepção da Noruega, todos os outros países produtores de petróleo são ditaduras. Isto não é um acidente. Num país destituído de recursos, o enriquecimento do Estado tem como condição que a sociedade também enriqueça, a fim de que o Estado possa tributar essa riqueza. Neste sentido, a extrema pobreza foi uma bênção para os países do Sudeste Asiático. Os seus regimes foram obrigados a trabalhar muito para criar um governo eficaz, porque essa era a única via para enriquecer o país e, consequentemente, o Estado. Os governos de países com importantes recursos naturais jogam um jogo muito mais fácil. Tornam-se gestores de um património que cresce graças às receitas das matérias-primas e do petróleo e não têm de se aplicar na tarefa de criar um sistema de leis e de instituições que possa gerar riqueza nacional. Dinheiro fácil implica que o governo não precisa de cobrar impostos aos seus cidadãos. A reciprocidade contratual entre cobrança de impostos e representação, que é no mundo moderno o fundamento da própria legitimidade, não existe. O governo torna-se uma plutocracia e não um Estado: os seus homens de negócios tornam-se cortesãos e não chefes de empresa. A família real saudita propôs um pacto aos seus súbditos: "Não exigimos muito de vocês, economicamente, e não vos damos muito, politicamente."
Compreenderá que o texto acima se aplica igualmente a Angola. Quando escreve no seu blogue que "nestes anos de paz o povo está a viver pior do que há quatro anos atrás - apesar do dinheiro entrado, das remodelações governamentais, dos planeamentos e programas bem concebidos mas que não se vêem nas cubatas, as quais continuam sem água potável e sem sanitários" (cito com ligeiras alterações), entenderá que nada se resolve de um dia para o outro num país com a dimensão e a falta de estruturas convenientemente organizadas como é o caso de Angola. Importa não desanimar. Os investimentos estrangeiros irão decerto ajudar a criar empregos, mas o melhor investimento de todos é sem dúvida na educação. Se o governo não está a apostar forte na educação, criando escolas primárias, secundárias e superiores por todo o país, os angolanos ver-se-ão impossibilitados de competir com o resto do mundo e, principalmente, de criar riqueza através de uma sociedade civil gradualmente mais forte - a sociedade que é essencial para a instauração da democracia. Pessoas educadas, todas a saberem ler, escrever e fazer contas, umas a saberem de contabilidade e economia, outras de gestão e finanças, outras de engenharia, outras de medicina, outras de direito, outras de informática, etc. fazem imensa falta ao país riquíssimo que Angola é. Não é algo que se consiga de um dia para o outro. É de facto um trabalho de gerações. Mas é preciso trabalhar, trabalhar sempre. Sem esforço não se vai a lado nenhum. Enquanto a produtividade angolana for baixa, em resultado directo da falta de bases educativas, os salários não podem ser altos. O único enriquecimento verdadeiro de um país é através da sua população, "o capital humano", como os economistas gostam de dizer.
A paz é um requisito importante, mas não uma paz estagnada. (Comentar)

Escrito por: Carvalho-Oliveira em 2006/04/11 - 00:23:18
3 - Pois,só tenho a acresentar o seu mesmo pedido e torcer pelo povo angolano para que eles possam viver pelo menos com as mesmas alegrias que nós os brasileiros,e que não desistam nunca de seus ideais. (Comentar)

Escrito por: hermogenes gomes em 2007/04/14 - 01:50:36 em resposta a: 1
4 - Eu sou um jovem de 23 anos de idade,de nacionalidade angolana, nascido em Luanda,estudante universitário de Engenharia;vivo na carne as dificuldades que um jovem angolano passa no seu quotidiano...mas a verdade é que... estou na minha rua entre amigos e só há críticas,vou à universidade e também só há críticas,inclusive a minha professora de nacionalidade portuguesa também faz o mesmo papel que de criticar e mais... incute na amente dos meus colegas de que o meu país é um beco sem saída e infelizmente toda turma exceptuando a minha pessoa a concordar com o conceito da mesma.Isto é uma brincadeira ao cubo,por um lado jamais aceitarei que um estrangeiro que nem 5 anos fez no interior do paí critique a mesma sem conhecimento de causa,por outro lado...eu sou jovem, daqui a 3 anos serei engenheiro,é inconscibívél que jovens como eu não tenham uma perspectiva do amanhã do futuro do meu país numa faceta positiva.As provas estão a vista de todo mundo.O FMI perspectiva um crscimento económico 36 por cento em 2007 ao contrário de 15 por cento do ano passado,o nosso país é dado como uma das economias que mais há-de crescer a nível mundial e este crescimento alastrar-se-a até 2012 segundo os especialistas na matéria.Na verdade o que me deixa mais aborrecido nessa história toda é que criticas existe há toda hora ,o que não há de facto são criticas construtivas.
Na minha turma deram-me o nome de político,outros dizem que sou do MPLA outros ainda perguntam-me o que é que eu recebo em tyroca em defender tanto o governo,e eu os respondo que a cena não está em defender x ou y mas sim pensarmos com lógica naquilo que falamos(pois há muita gente quando está falar de política,fala de uma maneira empírica),naquilo que que a juventude angolana perspectiva para o futuro.
Agora, o que se debate,é sem dúvida como o Estado vai gerir a economia que está a crescer progressivamente,precisamos ter homens suficientemente capacitados,homens que sintam indirectamente o sofrimento do povo.Criticar não,oferecer críticas construtivas (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2007/06/26 - 19:23:15
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